Como isso vai funcionar no nosso dia a dia.

Gente, sério, alguma dúvida de que ter uma folga para quando estamos no ciclo menstrual é fundamental, um direito de saúde? Talvez para pessoas que não menstruam, isso não faça sentido/não mude nada/como que uma pessoa que sangra todo mês ainda não se acostumou a trabalhar e viver isso ao mesmo tempo?

Nós queremos que a experiência de trabalho seja cada vez mais fluida e saudável. Para isso, é necessário compreender necessidades básicas das pessoas e criar políticas que garantam o bem estar para se desenvolver profissionalmente. É com um imenso orgulho que compartilho com vocês que agora todas as pessoas que menstruam na Shoot terão direito à Folga TPM, mensalmente. Essa é uma conquista das mulheres da Shoot, que compõem a maioria da nossa equipe e vêem esse movimento como acesso a um direito básico de saúde.

A menstruação é um tabu. Se você pesquisar por “menstruação” no Google, a primeira sugestão é “menstruação tabu”. Estamos acostumados a usar eufemismos para falar sobre um período absolutamente natural do corpo e esse estigma da menstruação é um tipo de misoginia, porque nos condicionam a entender a função menstrual como algo que deve ser escondido. E esse tabu não é de hoje. É possível encontrar menções sobre a menstruação na primeira enciclopédia latina (73 a.C.) que fala que o contato com o sangue menstrual “esteriliza colheitas, seca jardins, apaga o brilho do aço, libera um cheiro horrível no ar e até enlouquece cachorros”.

Desde o primeiro momento em que menstruamos, somos alertadas de que isso é um segredo a ser guardado e escondido e que, se caso for descoberto que você está menstruada, será um motivo de constrangimento — quem nunca levantou da cadeira da escola com pânico de ter vazado e pedia sempre para uma amiga olhar você levantando para conferir? O problema é que esse medo é muito mais complexo do que parece, permeando tanto suas relações, seus estudos, seu trabalho, sua dinâmica com o próprio corpo. Segundo uma pesquisa da Casa 1, 57% das brasileiras se sentem sujas durante a menstruação. Esse impacto fica ainda mais grave no cenário da educação: 1 em cada 4 brasileiras não têm acesso a absorventes. Estudantes perdem em média 45 dias durante o ano letivo devido a falta de itens corretos para conter a menstruação. Em cenários de precariedade e falta de acesso à higiene básica, propaga-se a pobreza menstrual, levando as pessoas a usarem pedaço de pano, papel, jornal, até miolo de pão. Imagine viver o desafio da falta de acesso e ainda, para a maioria, uma viagem a bordo de uma montanha russa cheia de altos e baixos, com alterações no corpo e no emocional, de forma tão repentina e brusca que às vezes nem mesmo quem está vivendo em seu próprio corpo lembra que é apenas uma sensação passageira.

Ano passado, o presidente da república vetou a distribuição gratuita de absorvente, uma proposta que institui o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. O motivo? “O projeto contraria o interesse público, porque criaria despesa obrigatória de caráter continuado”. E não é só isso, claro. “Ao estipular as beneficiárias específicas, a medida não se adequaria ao princípio de universalidade, integralidade e equidade no acesso ao SUS”. Também não reconheceram absorventes como insumos padronizados, não podendo constar na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. Pasta de dentes e papel higiênico, por exemplo, são vistos como itens essenciais de saúde e não são taxados impostos sobre eles. Já para os absorventes, cada pacote tem 25% de impostos sobre o valor.

Se viver em uma sociedade em que a menstruação carrega tantas camadas, ter que vivenciar isso no ambiente profissional torna tudo ainda mais difícil. “Trabalhar com dor pra mim é uma das piores coisas. Faço tudo arrastada porque não consigo desligar da dor” compartilhou Helena, nossa redatora. Acreditamos que é preciso naturalizar a menstruação e suas particularidades e necessidades também dentro do ambiente corporativo. A Fernanda, também nossa redatora, falou sobre a dificuldade de produzir em meio a um furacão de dores e alterações emocionais: “no ciclo menstrual, quase nunca conseguimos ter a mesma produtividade dos outros dias. Isso, na minha perspectiva, é uma experiência que me deixa extremamente ansiosa. Essa imposição de que precisamos render, apesar de todas as coisas que rolam nas nossas vidas pessoais, traz um misto de sentimentos negativos porque, apesar do que tentam nos contar, trabalho e vida pessoal se atravessam diariamente”.

Mais do que conquistar um direito de saúde, queremos proporcionar um estímulo a observar e compreender cada vez melhor nosso ciclo menstrual, também como forma de nos compreendermos melhor. Vamos criar um canal no Slack para dividirmos experiências, conteúdo e até lembrar umas às outras de se cuidar, tomar água, compartilhar dicas e apoio.

Compartilhando nossas experiências e buscando encontrar uma solução para essa folga, compreendemos que cada pessoa tem um ciclo com necessidades específicas. Então, era necessário criar uma política que pudesse ser aplicada em cenários diversos e mutáveis. A solução que encontramos foi: a partir de agora, todas as pessoas da Shoot terão acesso a três turnos de folga por mês para a Folga TPM, que abrange não só a cólica, mas dores e alterações emocionais do ciclo menstrual como um todo. Esses turnos podem ser solicitados sem a necessidade de expôr o sintoma específico, sem o compromisso de refazer horas ausentes e sem redução em nossos salários. A pessoa deve solicitar a folga no início do dia para sua liderança, organizar internamente suas demandas e comunicar a equipe do turno ausente.

Não dá pra prever o dia em que vamos precisar dessa folga, né? Assim como não é efetivo ter uma regra que acolha todas as pessoas que menstruam de maneira única. É preciso ter uma cultura flexível o suficiente para acompanhar as variações de caso em caso e as necessidades. Então como implementar uma rotina de folgas nesse cenário instável? De maneira colaborativa. Na Shoot hoje existe pelo menos uma pessoa a mais para cada área e cargo. Isso significa que é possível diluirmos as demandas da pessoa que precisar se ausentar. “Aqui na Shoot já temos uma rotina bem flexível que valoriza muito a compreensão e o respeito aos momentos individuais. Essa seria mais uma prática que viria para reforçar tudo o que a gente acredita” compartilhou a Nicole, nossa Gestora de Projetos.

Sabemos que esse movimento é um privilégio da nossa estrutura atual, mas temos a intenção de inspirar e servir de exemplo para a criação de novas narrativas femininas no mercado de trabalho, como disse a Melissa, nossa Diretora de Arte: “fazemos parte de uma sociedade onde o direito à dignidade menstrual ainda não é uma realidade acessível. E, especialmente por isso, me vejo numa posição de extremo privilégio e analiso o quanto enxergar como privilégio algo que deveria ser um direito legítimo”.

Podemos já notar esse movimento como uma prática também de autoconhecimento e autocuidado: “saber que eu posso, nesses momentos tão específicos, respeitar os tempos do meu corpo é incrível e ter a segurança de que isso não irá ‘atrapalhar’ a minha rotina, me deixa mais confortável com a minha gestão do tempo”, disse a Julia, Diretora de Arte. Para Uinne, também nossa Diretora de Arte, essa folga auxilia na saúde e também no trabalho, fortalecendo o processo criativo: “durante meu ciclo, todas minhas emoções ficam afetadas. Então, através desse modelo, vou conseguir me preservar para otimizar minha energia para produzir melhor no trabalho, além de cuidar mais de mim mesma e ter mais carinho com minha saúde física e mental”. Cada ciclo tem suas particularidades e intensidades, que se apresentam de forma única em cada uma de nós, mas é nítido que a possibilidade de ter esse momento para si muda nossa perspectiva sobre esse momento sensível. “Não costumo ter um ciclo menstrual que me deixa muito impossibilitada de trabalhar. No meu caso não mudaria tanto. É claro que, se no dia que eu menstruar, rolar fazer essa folga, nossa, vai ser tuuuuuudo. Vai impactar mais no meu bem estar mesmo, podendo ficar mais resguardada e sem sentir tanta dor”, comentou a Fran, refletindo sobre como essa política vai impactar sua rotina.

E aí, curtiu? Nesse Dia Internacional da Mulher, garanta nossos direitos básicos para vivermos na plenitude, no fortalecimento, na liberdade, no impulso de nossos sonhos, no respeito e dignidade pelas nossas vidas.

Links complementares